*Artigo de opinião
Os investimentos em startups deste nicho cresceram 11 vezes nos últimos quatro anos
Este conteúdo faz parte do centro de estudos Inovações e Boas Práticas do IBÊ
A tecnologia já transformou diversos setores da sociedade, e agora também está revolucionando a forma de governar. As govtechs - startups e empresas que desenvolvem soluções tecnológicas para o setor público - estão ganhando espaço e transformando a maneira como os governos se relacionam com os cidadãos.
Com soluções que vão desde a automatização de processos internos até aplicativos que permitem a participação direta dos cidadãos nas políticas públicas, as govtechs provocam um impacto positivo na Gestão Pública, como a redução de custos e do tempo de resposta às demandas da comunidade.
Segundo o CEO do BrazilLab, Guilherme Dominguez, o crescimento desse ecossistema nos últimos quatro anos ocorreu em volume e qualidade, principalmente se comparado ao último estudo realizado em parceria com o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF).
Em 2020, quando o mapeamento foi divulgado, foram identificadas 80 govtechs brasileiras vendendo de maneira consistente para governos ou atuando em parcerias com o setor público de forma recorrente. Apenas 20 iniciativas de inovação aberta para o governo existiam há quatro anos.
De lá para cá, 475 startups, pequenas e médias empresas foram criadas e passaram a vender ou colaborar com o governo. Um aumento de 493% na oferta de soluções focadas em resolver problemas do setor público.
Os dados fazem parte do Mapa Govtech divulgado na última semana e realizado pelo BrazilLab - primeiro hub de inovação GovTech do Brasil e da América Latina - em parceria com a Oracle, empresa de tecnologia em nuvem e infraestrutura de computação.
Hoje já são 330 iniciativas de inovação aberta ou laboratórios de inovação voltadas para esse mercado, um crescimento de quase 16 vezes, segundo o BrazilLab. A maioria das iniciativas, cerca de 56%, está vinculada ao Poder Executivo, número que evidencia o impacto dos serviços públicos digitais nos municípios.

O Brasil também tem se destacado no cenário mundial de govtechs. Em 2022, o país foi reconhecido pelo Banco Mundial no GovTech Maturity Index (GTMI) como um dos líderes em governo digital no mundo.
Entre as 198 economias avaliadas, o Brasil se destacou como um dos 22 países com as melhores práticas. Já na pesquisa sobre governo eletrônico da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2022, o Brasil foi classificado como quarto país da América do Sul com melhor oferta de serviços públicos digitais.
No Índice de Governo Digital 2023 da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil apresentou um desempenho acima da média dos países da organização e à frente de nações como Lituânia, Espanha, Países Baixos, Áustria e Israel.
Além de ter avançado seis posições no Índice Global de Inovação 2023, realizado pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual, o Brasil foi considerado a economia mais inovadora da região da América Latina e Caribe pela primeira vez, ultrapassando o Chile.
Para Enrique Zapata, coordenador de Inteligência de Dados, Govtech e Governo Aberto do CAF, essa década será um período importante para estabelecer as bases para a maturidade do ecossistema govtech na América Latina.
“Trata-se de um fenômeno global e continuará crescendo exponencialmente. Num mundo em que as tecnologias avançam a cada dia, os governos contam com o setor privado para entender como aplicar e potencializar o uso dessas tecnologias em ambientes onde os orçamentos são escassos”, explica Enrique.
Ele pontua também que para escalar esse crescimento é preciso atualizar os sistemas de compras públicas, o que vai permitir uma relação mais fácil e ágil entre os governos e as govtechs.
O maior investimento na Latam é do Brasil
A oferta qualificada de soluções tecnológicas, a demanda crescente por transformação digital nos órgãos públicos, o ambiente regulatório adequado e os bons resultados favorecem a entrada de capital nesse ecossistema.
Prestes a atingir um valuation de US$ 1 trilhão até 2025, segundo dados da consultoria inglesa Public, o mercado govtech pode se tornar um dos setores digitais mais importantes da economia global, se não o mais importante, criando novos e melhores serviços públicos.
Os investimentos que giravam na casa dos R$ 200 mil multiplicaram-se por 11, desde que o movimento govtech começou no Brasil. O aporte em uma govtech "brazuca" foi o maior da América Latina e abriu um precedente no setor: empreender no setor público pode ser tão sexy quanto ter uma fintech, healtech ou startup de inteligência artificial.
Fundada em 2017 pelo arquiteto Marco Antonio Zanatta, quando a expressão govtech ainda começava a se difundir pelo mundo, a Aprova é uma plataforma para gestão e automação de processos no setor público.
Baseada no modelo Saas (Software as a Service), utiliza integrações, automações e inteligência artificial para modernizar instituições públicas e tornar os serviços mais eficientes.
No final de 2022, a empresa recebeu um investimento de R$ 22,5 milhões em uma rodada Seed liderada pela VOX Capital — gestora do fundo de CVC de Impacto do Banco do Brasil — e pela Astella.
O valor representa quase metade da quantia captada por govtechs brasileiras em oito das maiores operações divulgadas desde 2020, que totalizou R$ 48 milhões – segundo dados do LAVCA (Association for Private Capital Investment in Latin America) e Sling Hub.
Marco, que também é CEO da Aprova, projeta um crescimento exponencial nos próximos três anos. "Com cinco vezes mais fornecedores e entusiastas, o capital vai seguir esse caminho. Trabalhar com o governo será tão sexy quanto hoje é atuar em vertentes mais populares do ecossistema", destaca.
Para ele, o Governo como Serviço vai empregar o melhor da tecnologia do setor privado para que gestores e servidores públicos melhorem suas operações gerais e ofereçam aos cidadãos a experiência que eles desejam.
Segundo o empresário, à medida que os gestores públicos identificam a importância dessa transformação - o que já vem acontecendo em muitos municípios brasileiros - a demanda aumenta e impulsiona investimentos em novas soluções para melhorar a oferta de serviços para população em diferentes locais e camadas.
"Vivemos uma revolução silenciosa que está transformando a América Latina em um continente digital, referência em serviços públicos autônomos e eficientes que oferecem uma experiência tão positiva quanto a já vivenciada (e aprovada) pelas pessoas no setor privado ao decidirem o que comer, onde comprar, como viajar ou socializar", conclui Marco.
Autor:
Deyvid AlanTags:
Digitalização, Govtech, Inovação, Tecnologia