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É possível ter uma cultura do reconhecimento no setor público?

Eloy Oliveira, diretor do República.org, mostra que sim e ainda traz exemplos bem-sucedidos

Vamos começar com uma reflexão? Fala pra gente, servidor: você se sente valorizado? Acha que o seu órgão público fomenta uma cultura do reconhecimento? Nós esperamos que você tenha respondido “sim”, mas seja de um jeito ou de outro, te convidamos a ler essa entrevista com o Eloy Oliveira, diretor do República.org.

Ele já participou de um episódio no podcast Radar IBEGESP falando, justamente, da importância de fomentarmos uma cultura do reconhecimento no setor público. E agora, nessa entrevista inédita, ele traz ainda mais informações relevantes pra você que quer dar um pontapé inicial para garantir iniciativas de reconhecimento e valorização no seu dia a dia de trabalho. Confira abaixo!

PERGUNTA: Reconhecimento é um conceito amplo com aspectos subjetivos. Como definir, então, o que é uma cultura do reconhecimento no setor público?

RESPOSTA: Reconhecer é valorizar aquilo que há de melhor. É olhar para os bons exemplos e celebrá-los. A servidora e o servidor público valorizado, tem mais motivação para trabalhar e entrega melhores serviços para a sociedade.

Quando nós falamos em uma “cultura do reconhecimento” estamos nos referindo a um sistema, ou conjunto de práticas, que tem como objetivo internalizar de forma rotineira a valorização dos bons exemplos e bons profissionais. O termo “cultura de reconhecimento” não é uma inovação nossa, ele já vem sendo empregado em outros países como EUA, Australia, Inglaterra (“culture of recognition”).

O setor público brasileiro é especialmente carente de mecanismos para impulsionar uma cultura de reconhecimento/valorização de profissionais. Gasta-se muito com o intuito de punir os atos lesivos, mas não se dá atenção para o outro lado da moeda, ou seja, valorizar o que há de melhor.

PERGUNTA: Pensando em um plano macro, o que é possível fazer para que os servidores públicos sejam socialmente reconhecidos?

RESPOSTA: No Brasil, ainda existe um estigma em torno da figura do servidor público. Para quebrar esse preconceito, precisamos fazer dois esforços: o primeiro de dentro para fora, por meio do qual o serviço público expõe para a sociedade o valor e qualidade do seu corpo técnico. Diante do cenário de pandemia que vivemos, vale por exemplo, lembrar que é o Butantan, Fiocruz, Anvisa, SUS e os seus cientistas, médicos, enfermeiros e demais profissionais que vem liderando o combate a COVID-19 no Brasil com embasamento técnico de altíssima qualidade. A sociedade precisa enxergar o grande valor de nossos profissionais. 

O segundo esforço necessário é de fora para dentro: a sociedade precisa aprender a olhar para os profissionais públicos com outro filtro. Todos nós conhecemos profissionais públicos de excelência. Muitas vezes são pais, mães, irmãos, primos, que se destacam por sua dedicação.

Em resumo, precisamos tanto do esforço interno do serviço público para mostrar o seu valor, quanto da sociedade de valorizar os profissionais públicos. Somente assim, mudaremos a mentalidade das pessoas, para ter profissionais socialmente valorizados.

PERGUNTA: E no plano micro? O que é possível ser feito para que os servidores sejam reconhecidos e se reconheçam entre si no dia a dia de trabalho?

RESPOSTA: O segredo é começar pelas coisas mais simples: um e-mail de parabéns a um colega de trabalho que bateu sua meta já é uma forma de reconhecimento valiosa. Todos nós podemos e devemos incluir esses pequenos gestos de reconhecimento na nossa rotina. Lembrar de elogiar um trabalho bem feito. Agradecer sempre a quem se esforça para ir além nas suas entregas. Uma ligação da chefia para reconhecer a dedicação de alguém. Todos esses pequenos gestos contribuem para a construção da cultura de reconhecimento.

PERGUNTA: Tanto o IBEGESP quanto o República.org reforçam a importância da gestão de pessoas para o desenvolvimento do setor público. Na sua opinião, como nossa atuação enquanto terceiro setor pode contribuir para que a Gestão Pública solidifique uma cultura do reconhecimento?

RESPOSTA: É importante modernizar a gestão de pessoas no serviço público. Precisamos evoluir do RH operacional e ir para o RH estratégico. Recursos humanos é muito mais do que rodar folha de pagamento. É atrair as pessoas certas, treiná-las, mantê-las motivadas e reconhecer e valorizar os talentos.

Para que essa evolução do RH aconteça no serviço público, é necessária uma grande sintonia com as lideranças e o empoderamento das lideranças de RH para nutrir os talentos do serviço público.

Acredito que a primeira missão do terceiro setor nessa agenda é a de chamar atenção para a pauta do RH. Podemos contribuir muito ressaltando os bons exemplos de dentro e fora do Brasil, e ajudando entidades públicas a aderirem a melhores práticas. O terceiro setor nunca poderá substituir os governos, mas podemos usar nossa agilidade, e a liberdade de inovação, para testar hipóteses de forma rápida e oferecer soluções para serem implementadas pelos governos.

PERGUNTA: Compartilhe conosco cases de sucesso, tanto em projetos do República.org quanto de órgãos do governo, em que podemos ver uma cultura do reconhecimento no setor público.

RESPOSTA: Um exemplo de sucesso que me dá muito orgulho é o Prêmio Espírito Público. Criamos o prêmio em 2018, com o apoio de uma dezena de outras ONGs e Fundações. O Prêmio Espírito Público é uma premiação criada pela sociedade, para reconhecer os talentos do Governo. Ele nasce para impulsionar uma mudança de pensamento sobre os profissionais públicos, com o foco de reconhecer pessoas que transformam o Brasil diariamente.

Existem também excelentes iniciativas de valorização dentro dos Governos também. Duas que eu gosto de destacar são:

1- O Programa M.O.V.E. Goiás, criado pelo Governo de Goiás, estabelecido por meio do Decreto nº 9.462, de 11 de julho de 2019, que tem como finalidade “implantar projetos e iniciativas visando uma gestão de pessoas mais efetiva, empática e estratégica, que compreenda o ser humano em sua completude, atraia novos talentos, desenvolva suas potencialidades e aloque-o por competência conforme mapeamento de necessidades das unidades administrativas do Estado de Goiás”

2- A política de valorização do servidor público de Cascavel, criado pelo Decreto Municipal nº 14.065/2018, com foco em “Ações que objetivam valorizar o servidor além de sua relação funcional com o Município, homenagear e premiar os servidores que se destacam por seu empenho e dedicação, evidenciar as habilidades dos servidores a partir de eventos de lazer, cultura e esporte, sensibilizar o servidor para o seu envolvimento em ações de responsabilidade social e promover a aproximação entre os servidores para construção de vínculos de união e amizade.”

PERGUNTA: Qual dica você dá para o nosso leitor que quer iniciar alguma prática de reconhecimento em seu ambiente de trabalho?

RESPOSTA: Se você quer iniciar práticas de reconhecimento no seu ambiente de trabalho, basta dar o primeiro passo. Não deixe para amanhã, nem se deixe levar por impedimentos ou dificuldades que possam surgir. Basta querer. Tem muita gente que fica imobilizado pela falta de recursos para botar em ação uma cultura de reconhecimento, mas tem muita coisa que é possível fazer com custo baixo ou custo zero. A hora para começar é agora!

E aí, servidor? O que está refletindo agora que acabou a leitura? Se sente reconhecido? Compartilha com a gente comentando aqui embaixo!

Sobre o Entrevistado

Eloy Oliveira é advogado, Mestre em Administração Pública pela Universidade de Columbia (nos Estados Unidos) e Diretor do Instituto República. Ele possui mais de 15 anos de carreira dedicados a melhorar a Gestão Pública brasileira, tendo trabalhado em cargos de liderança dentro e fora do Governo.

Sobre a Autora

Marina Macedo Rego

É doutoranda em Humanidades, mestra em Sociologia, bacharel e licenciada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Pesquisadora da área dos marcadores sociais da diferença desde 2010, atuou em diversos centros de pesquisa e no desenvolvimento de projetos sociais. Como educadora e produtora de treinamentos, possui uma carreira focada no Terceiro Setor e na Administração Pública. Acredita que a o acesso à educação e o respeito aos Direitos Humanos sejam vitais para o combate à desigualdade social.