Dúvidas? 11 3052-2529 | 0800 771 2529 Login

Valorização do servidor, combate ao estigma do setor e perspectivas para o futuro.

O que 2020 nos ensinou sobre o serviço público?

2020 não foi só pandemia. Foi um ano de muito debate sobre o serviço público e seus profissionais. E no meio de prováveis reformas administrativas e do usual estigma do servidor, pairam algumas perguntas que todos nós empenhados em construir uma Gestão Pública melhor fazemos diariamente: como garantir a valorização da gestora e do gestor público? Como combater o estigma que atinge esse profissional?

Essa não é uma tarefa fácil, ainda mais quando velhos preconceitos entram em cena. Apesar disso, promover essa valorização foi uma das principais tarefas do IBEGESP nos últimos meses. Em outubro, inclusive, tivemos uma programação especial de lives para isso.

Na ocasião, tratamos sobre um dos assuntos mais debatidos do momento: a remuneração do servidor público. Pra falar sobre o tema, conversamos com Félix Lopes, pesquisador do IPEA, e Ademar Orsi, docente do IBEGESP e especialista em cargos e salários.

Félix Lopes apontou de forma eficaz o mal entendido que ronda a questão salarial do serviço público. O pesquisador mostrou que a ideia de que toda remuneração pública é astronômica não leva em consideração a acentuada diferença entre a folha salarial dos distintos entes federativos. Para entender melhor, vai aqui uma explicação:

  • 60% dos servidores estão alocados nos municípios e esse grupo apresenta a menor média salarial do setor público;
  • 30% dos servidores trabalham nos estados e a média salarial desse grupo é notadamente inferior à dos servidores federais;
  • Os 10% de servidores que trabalham na esfera federal concentram uma média salarial expressivamente superior à dos demais membros do setor público. 

Veja a tabela abaixo para entender!

Mas se a esmagadora maioria dos profissionais que integram o serviço público estão no executivo municipal, que tem uma média salarial de R$ 2.834,98, por que frequentemente se fala da remuneração dos cargos federais como regra no serviço público? Vale lembrar que os servidores federais são apenas 10% desses profissionais. Sobre isso, Félix Lopes afirma:

O profissional ainda aponta que essa distorção do debate endossa o estigma que atinge servidores. Para combatê-lo, segundo Félix, seria necessário fomentar a expansão democrática e os debates que se baseiem em dados confiáveis, sólidos.

Outro profissional que nos falou sobre a remuneração dos servidores e como combater seu estigma foi Ademar Orsi, docente do IBEGESP e especialista em cargos e salários. Ademar afirmou que em determinados momentos seria importante deslocar o debate da remuneração e também refletir sobre as recompensas pelo trabalho, sendo que estas abarcam, segundo o profissional, facetas que escapam à esfera financeira. Sendo assim, fica uma pergunta para você: quais são as recompensas não-financeiras do seu trabalho?

Ademar apontou a importância desse tipo de recompensa para o debate sobre a remuneração no setor público. Segundo o profissional:

“As recompensas não-financeiras estão ligadas à oportunidade de desenvolvimento, crescimento na carreira, o reconhecimento pelo trabalho, o ambiente em que se participa e também a própria qualidade da liderança que é exercida naquela organização.” (Ademar Orsi, docente do IBEGESP e especialista em cargos e salários)

Outra profissional que conversou com o IBEGESP sobre o tema da valorização do servidor e tratou de outros atributos que não o econômico foi Nati Tazinazzo, coordenadora pedagógica em Americanópolis, um bairro de alta vulnerabilidade em São Paulo. Ela apontou algo bastante relevante para gestores públicos do nível tático:

“O grande verbo do coordenador é articular (...) é essa coisa contraditória, né? Quando tá funcionando é porque ninguém tá sentindo o impacto. A partir do momento em que começa a ter ruído, é sinal de que o nosso trabalho não está funcionando.”  (Nati Tazinazzo, coordenadora pedagógica)

Para além dessa questão do trabalho invisível do servidor tático, a profissional apontou o afastamento crescente da sociedade com a “coisa pública”. Nati disse:

A coordenadora pedagógica conseguiu trazer ao debate a complexidade sociopolítica que envolve o estigma do servidor. Para ela, essa estigmatização vincula-se à supressão do público diante do que é individual. Uma nova forma de pensar, educar e organizar-se socialmente é apontada por Nati Tazizazzo como a forma de valorizar servidores e combater seu estigma.

Um profissional que também participou dessa discussão foi Adilson Bretherick, diretor do Hospital das Clínicas de São Paulo. Quando perguntando sobre a importância de seu trabalho e sobre o impacto social que haveria caso ele deixasse sua função, Adilson respondeu:

“Seguramente teria uma outra pessoa a ocupar minha função. Essa é uma preocupação que nós agentes públicos temos: o preparo do gestor público para essas funções” (Adilson Bretherick, diretor do Hospital das Clínicas)

Adilson, que está há 25 anos na direção do Hospital das Clínicas de SP, apontou que o maior desafio da Gestão Pública atual é a qualificação do servidor. Para além disso, o profissional enfatizou a importância de mostrar continuamente o resultado e a qualidade do serviço público. Para ele, essas seriam formas de combater o estigma de que tanto falamos:

Wilton Paulino Jr., diretor da Escola de Governo do Mato Grosso do Sul, também atentou à importância de mostrar os resultados e a qualidade do setor público Sobre isso, o profissional expressou ganhos expressivos do seu local de atuação:

“Nós temos muito orgulho de ter proposto um trabalho inovador com a participação dos servidores. Eu acabo de vir de uma premiação, do 15º prêmio sul mato-grossense de inovação no setor público.” (Wilton Paulino Jr., diretor da Escola de Governo do Mato Grosso do Sul).

Ele enfatizou que as Escolas de Governo existem por uma questão constitucional, para formar os profissionais públicos e que são elas que fazem valer um plano governamental. Para além disso, Wilton salientou que o serviço público é algo que atinge toda a população:

O que as falas desses gestores e gestoras públicas mostram é que valorizar o servidor e combater seu estigma é uma tarefa urgente. 2020 foi um ano que sem dúvidas expressou a centralidade que o serviço público tem na vida da população. Diante disso, o IBEGESP espera que 2021 seja um ano de fortalecimento desse serviço indispensável e de seus profissionais. Valeu servidor!

Quer ver o que nossos entrevistados falaram na íntegra? Clique aqui e confira a live sobre remuneração do servidor com Félix Lopes e Ademar Orsi. E clicando aqui , você pode conferir a live sobre a importância do serviço público com Nati Tazinazzo, Wilton Paulino Jr. e Adilson Bretherick.

Sobre a Autora

Marina Macedo Rego

É doutoranda em Humanidades, mestra em Sociologia, bacharel e licenciada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Pesquisadora da área dos marcadores sociais da diferença desde 2010, atuou em diversos centros de pesquisa e no desenvolvimento de projetos sociais. Como educadora e produtora de treinamentos, possui uma carreira focada no Terceiro Setor e na Administração Pública. Acredita que a o acesso à educação e o respeito aos Direitos Humanos sejam vitais para o combate à desigualdade social.